terça-feira, 11 de junho de 2019

Periódicos/Revistas predatórios, Preda Qualis e Editoras que querem publicar seus trabalhos gratuitamente.


Victor Antunes Silva Barbosa



No mundo acadêmico, a medida do desenvolvimento técnico e científico de um local se dá a partir do volume de publicações feitas em periódicos de reconhecimento internacional. Desta forma, há uma grande exigência das agências de fomento à pesquisa aos programas de pós-graduação, docentes e discentes de se publicar artigos, visando inserção e maior reconhecimento da pesquisa no cenário mundial. Além disso, devido ao alto nível de exigência por parte dos periódicos, publicar não tem sido uma tarefa fácil para os pesquisadores. Neste contexto, são abordados neste artigo os periódicos/revistas predatórios, o Preda Qualis, e editoras que querem publicar seus trabalhos gratuitamente.

O que são periódicos/revistas predatórios?



As revistas predatórias são aquelas que se utilizam do modelo de publicação Open-Acess, ou seja, cobram para publicar artigos acadêmicos, e não realizam a avaliação adequada da qualidade dos textos científicos. Esta revisão deve ser feita por avaliadores independentes que atuam na área e acompanhada por um editor da revista, também com formação científica. Segundo Beall (2016), um dos primeiros pesquisadores a investigar o crescimento destes periódicos no meio acadêmico, estas revistas exploram o modelo Open-Access para lucrar com publicações acadêmicas de forma desonesta. Esta avaliação inadequada, e muitas vezes até inexistente, permite que artigos, como o mostrado na Figura 1, sejam publicados.



Figura 1. Exemplo de artigo publicado em periódico predatório.

O sistema acadêmico brasileiro se constitui como grande alvo para estes periódicos, devido a características como:
  • Busca por inserção internacional;
  • Cultura de pesquisa voltada a quantidade (e não qualidade) de publicações científicas;
  • Centralização da avaliação da pesquisa pelo Qualis;

O aumento dos tipos de publicações nesses periódicos podem trazer efeitos negativos aos pesquisadores, como perda de credibilidade internacional, e as pesquisas, como perda de confiança do mérito da pesquisa acadêmica.

Segundo Marques (2018), os níveis de publicação de pesquisadores brasileiros em revistas predatórias ainda apresentam baixos percentuais, como visto na Figura 2. No entanto, a partir de 2010 ocorreu uma crescente de publicações em periódicos predatórios. Estes números, atualmente, podem ser bem maiores, visto que os dados apresentados mostram o volume destas publicações até o ano de 2015.


Figura 2. Evolução entre 2000 e 2015 das publicações de autores brasileiros em revistas tidas como predatórias, por área do conhecimento (em %).
Fonte: Marques (2018).


Quais as características de periódicos/revistas predatórios?


Periódicos predatórios tendem a apresentar algumas das características listadas abaixo:
  • Envio de lotes de e-mails com convite para submissão de artigos;
  • Taxa de aceitação elevada;
  • Publicação extremamente rápida (Ex: 1 semana);
  • Exigência de transferência de direitos autorais antes da aceitação;
  • Limitação na supervisão ou editoração;
  • Revisão por pares deficiente ou inexistente;
  • Alegações falsas sobre indexação e fator de impacto;
  • Inserção de nomes no corpo editorial sem autorização;
  • Não respondem aos pedidos de retirada de tramitação;
  • Taxas de publicação extremamente caras, com pagamento geralmente após o aceite do artigo;
  • Nomes parecidos com revistas conceituadas e geralmente com algum indicação geográfica, mas equipe situada em outro país.
  • Site com baixa qualidade (design e erros de escrita);
  • Incoerência entre proposta e conteúdo.

No entanto, existe uma ferramenta que nos permite identificar quais periódicos são predatórios, o Preda Qualis.


O que é o Preda Qualis?


O Preda Qualis é um site, mostrado na Figura 3, proveniente de um estudo em conjunto dos pesquisadores Paulo Inácio Prado  (USP), Roberto André Kraenkel (UNESP)  e  Renato Mendes Coutinho (UFABC). Este site foi idealizado baseado no trabalho de Jefrey Beall, da Universidade do Colorado, que lançou uma lista com diversas revistas e editoras consideradas predatórias.

Figura 3. Site Preda Qualis.


O Preda Qualis tem como objetivo:
  • Identificar os periódicos potencialmente fraudulentos listados pelo Sistema QUALISCAPES;
  • Estimar a proporção destes periódicos na base QUALIS e a chance destes periódicos serem detectados pelo sistema QUALIS;
  • Apresentar uma avaliação detalhada, dividindo os dados a partir das 49 áreas de avaliação da CAPES. 



O Preda Qualis compila duas listas de periódicos com características predatórias: a lista de periódicos publicados pela editora OMICS (uma das maiores editoras reconhecidamente predatórias) e a lista de Periódicos criada por Jeffrey Beall (que se encontra fora do ar, mas é facilmente encontrada em outros sites). Após esta compilação, há um cruzamento dos títulos destas listas com os presentes no QUALIS. A seguir, são eliminados os títulos presentes no Directory of Open Access Journals e periódicos que não seguem estritamente o modelo Open-Acess.

Em outras palavras, o Preda Qualis é uma ferramenta que permite ao pesquisador verificar se um periódico, listado na base Qualis da Capes, é predatório. Essa busca pode ser feita pelo nome do periódico, pela área, pelo ISSN do periódico, pelo estrato Qualis ou por busca de palavras-chave, como mostrado na Figura 4.


Figura 4. Formas de busca no Preda Qualis.


Editoras que querem publicar seus trabalhos gratuitamente


Outro risco aos pesquisadores são as editoras que oferecem publicações gratuitas de teses e dissertações recém-defendidas. Estas editoras entram em contato com os autores após publicarem suas teses e dissertações oferecem uma publicação sem custos. No entanto, elas apenas fornecem uma edição digital da sua dissertação ou monografia, com a capa da editora. Todo o trabalho de revisão de texto fica com o autor, não sendo realizada uma revisão do texto pela editora ou solicitação de análise da obra por especialistas da área.

Os riscos associados a estes tipos de publicações são:
  • Uso indevido da obra sem que o pesquisador possa intervir, pois este abriu mão de parte de seus direitos ao aceitar a publicação gratuita;
  • Se você quiser seu livro impresso, terá de pagar, a um elevado custo;
  • Perda financeira por vender um livro com conteúdo já disponível gratuitamente nos repositórios das universidades;
  • Ter seu trabalho associado a um produto de baixa qualidade de material.

Caso seja do desejo do autor publicar sua tese ou dissertação, existem opções mais seguras e que agregam maior qualidade a publicação. Para isso, segue como sugestões:
  • Buscar uma editora confiável;
  • Publicação através do formato e-book: menos burocrático e maior potencial de circulação da obra;
  • Caso se queira publicar de forma impressa, existem como opção o self-published, onde o autor arca com todos os custos da publicação; o on demand, onde há uma parceria com editora para produção de exemplares sob demanda; e busca por editais de fomento a pesquisa com verba para publicação.

O grande risco associado aos periódicos predatórios e editoras que apresentam publicações a custo zero é o de associação de bons trabalhos de pesquisa a entidades de objetivos obscuros, não relacionados à divulgação e desenvolvimento da ciência e tecnologia. Estas entidades se aproveitam da necessidade crescente de publicar para lucrar, unindo bons trabalhos a outros que podem não apresentar tanta qualidade devido a avaliação feita de forma inadequada, trazendo efeitos negativos ao meio acadêmico. Para os pesquisadores, o Preda Qualis se apresenta como uma ferramenta essencial para fugir de periódicos predatórios, e garantir que seus trabalhos sejam publicados em periódicos de reconhecimento internacional que prezam pela qualidade dos trabalhos técnico-científicos.

Links importantes:



Referências
BEALL, Jerey. Essential information about predatory publishers and journals. International Higher Education, (86):23, 2016.
MARQUES, Fabrício. Boas Práticas: A sombra das revistas predatórias no Brasil. Revista Pesquisa Fapesp, v. 270, 2018. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/2018/08/09/a-sombra-das-revistas-predatorias-no-brasil/. Acesso em: 29-mai-2019
Site PREDA QUALIS, Periódicos potencialmente predatórios no QUALIS-CAPES. Disponível em: https://predaqualis.netlify.com/ Acesso em: 05-jun-2019


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