Preprints para publicações científicas
Matheus Gomes Martins
Universidade Federal
da Bahia
Introdução
A produção, disseminação e uso da
informação são fundamentais para o desenvolvimento das comunidades científicas.
Desde séculos passados, o ato de comunicar através de canais informais e
formais se tornou um fator necessário para a construção de novo conhecimento.
Na atualidade, o periódico peer review
é o canal de comunicação formal mais utilizado para publicação das descobertas
científicas. (GINSPARG, 2016).
Desde
a década de 1960, os físicos teóricos e experimentais, ansiosos para divulgarem
os resultados científicos para seus pares de uma forma mais rápida do que a
publicação convencional, submetem seus relatórios de pesquisa nos repositórios
de preprints. Anos mais tarde, os avanços tecnológicos e o advento da Internet
aceleraram o processo de comunicação científica e tornaram as pesquisas mais
visíveis, uma vez que permitiu o acesso remoto de repositórios e bancos de dados
informatizados como arXiv e SPIRES (atualmente INSPIRE-HEP). (CAREGNATO
et al. 2017).
Os
pesquisadores em física e matemática vêm há mais de 25 anos depositando seus
trabalhos de pesquisa no arXiv.org onde são incluídos mais de 100 mil
manuscritos por ano e novas áreas e disciplinas foram agregadas ao repositório,
como por exemplo, biologia quantitativa, estatística e finanças quantitativas. Novos
servidores de preprints estão em operação em outras áreas ou se encontram em
processo de lançamento. A iniciativa ASAPbio, dirigida por cientistas, está
promovendo ativamente o uso de preprints na área de biologia. Entre outros,
destacamos, em ordem alfabética, bioRxiv,
ChemRxiv, engrXiv, Figshare, F1000Research, PeerJPreprints, PsyArXiv, SocArXiv e
SSRN. O importante é que todos estes preprints são detalhadamente indexados
pelo Google Scholar, o que lhes
permite uma visibilidade imediata pela comunidade de pesquisadores. O site Open
Science Framework também indexa todos os principais servidores de preprints. (SPINAK,2016).
Conceito
Um
preprint é um manuscrito científico completo que é depositado pelos autores em
um servidor público. O preprint contém dados e metodologias completos; é
frequentemente o mesmo manuscrito que está sendo submetido a um periódico. Depois
de uma breve inspeção de controle de qualidade para garantir que o trabalho é
de natureza científica, o manuscrito do autor é publicado na Web dentro de
aproximadamente um dia sem passar por avaliação pelos pares e pode ser
visualizado gratuitamente por qualquer pessoa no mundo. Com base no feedback e/ou novos dados, novas versões
do seu preprint podem ser submetidas; no entanto, versões anteriores do
preprint também são mantidas. (NASSI,2016).
Os servidores de preprint permitem que os
cientistas controlem diretamente a disseminação de seu trabalho na comunidade
científica mundial. Na maioria dos casos, o mesmo trabalho publicado como
preprint também é submetido para avaliação por pares em um periódico. Assim, os
preprints (rápidos, mas não validados
através de peer review) e a publicação de periódicos (lentos, mas validados por
meio de peer-review) funcionam em paralelo como um sistema de comunicação para
a pesquisa científica. (SPINAK,2016).
Segundo Spinak, (2016), os servidores de preprints são totalmente compatíveis
com periódicos acadêmicos e, de fato, existe uma grande quantidade de
sociedades científicas, assim como de periódicos (comerciais e de acesso
aberto) que têm incorporadas em suas políticas editoriais o uso de servidores
de preprints por parte do autor. Na Wikipédia há um artigo especialmente
dedicado ao tema, onde se encontram relacionadas estas instituições e suas
políticas, entre as quais, o Nature
Group, Elsevier, Springer, Cell, Science e muitas outras. O site ASAPbio
publica uma animação de 4 minutos que resume o que são os preprints.
Processo de envio
O preprint é depositado pelo autor
correspondente em um servidor de preprints, geralmente temático, seguindo
procedimentos públicos. A versão preprint pode ser um avanço ou uma versão
incompleta, porém o mais comum é uma versão final. Ao utilizar este serviço, os
autores estabelecem uma como precedente, podem solicitar comentários e agregar
sugestões ao manuscrito, que é enviado posteriormente ao processo editorial
formal de um periódico. (BERG, J.M., et al 2017).
Vantagens
·
Acesso aberto de forma imediata ao artigo;
·
Divulgação pública de trabalhos recentes e ‘invisíveis’, como as teses e bolsas de
doutorado;
·
Obter mais comentários sobre seu trabalho por parte de
colegas;
·
Data certa de quando sua pesquisa se torna pública, para
estabelecer prioridades;
·
Avançar ao ritmo da ciência.
Preocupações
·
Confiabilidade dos preprints
Na
realidade, os pesquisadores já estão compartilhando informação sobre seus
trabalhos, por exemplo, nas conferências. O mais importante é que a publicação
do preprint fornece uma data efetiva que permite aos pesquisadores estabelecer
a prioridade de sua parte do trabalho. (SPINAK,2016).
·
Plágio
De
acordo com Ginsparg (2013), fundador do arXiv comentou: “isso não deveria ocorrer, uma vez que os postings do arXiv são aceitos
com a data de publicação para reclamações de prioridade”.
“Como
cidadãos responsáveis da comunidade científica, vamos citar de boa fé os
trabalhos originais apresentados como preprints em nossos próprios trabalhos,
da mesma maneira que citaríamos uma publicação de periódico. Reconhecemos tais
trabalhos como apropriados em nossas apresentações nas reuniões científicas.”
Declaração preliminar do (GINSPARG, 2016).
Preprints no Brasil
A
adoção da modalidade de comunicação científica via preprints objetiva
enriquecer progressivamente o conjunto de funções e atividades regulares da
Rede SciELO que são orientadas ao cumprimento do objetivo de promover o
aperfeiçoamento continuado da gestão, operação e qualidade editorial dos
periódicos que indexa e publica. A consecução deste objetivo envolve o
alinhamento com o estado da arte internacional, mantendo, entretanto, como
referência as condições e prioridades das comunidades de pesquisa servidas
pelos periódicos. Neste contexto, a busca da celeridade na editoração e
publicação dos artigos é um ponto central que o SciELO Brasil vem promovendo
por meio da redução do tempo para indexar os periódicos, da publicação
individual de artigos na modalidade ahead of print, e, prioritariamente, por
meio da publicação contínua (ao contrário de esperar até que um fascículo seja
completado). A adoção dos preprints é, portanto, uma etapa natural. (PACKER,2014).
Conclusões
Os
preprints comprovadamente aumentam a quantidade de downloads e,
consequentemente, a visibilidade dos autores, de seus trabalhos e,
eventualmente, as citações.
Diminuem
de forma importante o atraso na publicação dos artigos que causa grandes
frustrações e reclamações em prioridade. Isso é crítico nas ciências
biológicas, física, química, e as “frentes de pesquisa” que são os temas
candentes na atualidade.
A
adoção generalizada de preprints terá consequências na função da avaliação por
pares (seja cega ou aberta), porém, sem dúvida, a converterá em um processo
mais dinâmico.
O
papel dos periódicos acadêmicos mudará no processo da comunicação científica.
Os periódicos poderiam bem se converter em selos de reconhecimento ou qualidade
confiável dentro da área de pesquisa.
Referências
ArXiv submission rate statistics.
Data for 1991 through 2016, updated 31 December 2016 [online]. arXiv. 2016 [24
May 2019]. Available from: https://arxiv.org/help/stats/2016_by_area/index.
BERG, J.M., et al. Preprints for the life sciences.
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DOI: 10.1126/science.aaf9133. Available from:
http://science.sciencemag.org/content/352/6288/899.full
NASSI-CALÒ,
L. Saiu no NY Times: Biólogos se rebelam
e publicam diretamente na Internet [online]. SciELO em Perspectiva, 2016
[viewed 24 May 2019]. Available from:
http://blog.scielo.org/blog/2016/04/07/saiu-no-ny-times-biologos-se-rebelam-e-publicam-diretamente-na-internet/.
PACKER,
A., et al. Acelerando a comunicação das
pesquisas: as ações do SciELO [online]. SciELO
em Perspectiva, 2016 [viewed 24 May 2019]. Available from:
http://blog.scielo.org/blog/2016/03/10/acelerando-a-comunicacao-das-pesquisas-as-acoes-do-scielo/
SPINAK,
E. O que é este tema dos preprints? [online]. SciELO em Perspectiva, 2016 [viewed 24 May 2019]. Available from:
http://blog.scielo.org/blog/2016/11/22/o-que-e-este-tema-dos-preprints/.
GINSPARG, P. Preprint Déjà Vu. The EMBO Journal [online]. 2016, vol. 35, pp:
2620-2625 [viewed 24 May 2019]. DOI: 10.15252/embj.201695531. Available from:
http://emboj.embopress.org/content/35/24/2620.
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